Quem (não) tem medo?


Na semana passada, vinha eu de Nova Lima para Belo Horizonte, de férias da faculdade, mas não do trabalho. Deu para acordar mais tarde e vir de ônibus mesmo, uma vez que como epiléptico que morre de medo de dirigir, nunca me preocupei com carro ou habilitação. O curioso foi que uma mulher, aparentando estar na casa dos trinta e alguma coisa, assentou-se do meu lado com seu filho de aproximadamente 3 anos. Até então, tudo na mais esperada normalidade, mas quando o lotação passou pelo posto da polícia rodoviária, na estrada de Nova Lima, o menino perguntou a mãe se aqueles homens do lado de fora da cabine eram “a poliça”. A mãe, em um tom pedagógico mais apropriado para pessoas com o quíntuplo da idade, respondeu que eram sim. Mal sabia ela que o menininho já possuía uma opinião formada sobre aqueles agentes. “Eu num gosto de poliça, não”. A mulher curiosa perguntou o porquê. A resposta foi: “porque ela mata a gente”. Gostaria de ter visto a minha cara nesse instante. Imagino ter dado aquele sorriso assustado que pode ser traduzido por: “Caralho! Eu não ouvi isso!”. A mãe com um evidente desespero se pôs a tentar explicar o que havia acontecido, já que, há poucos dias, um garoto da mesma idade tinha sido morto em uma perseguição policial .
Na minha época de criança, era muito normal ter medo, bem diferente dos infantes destemidos que costumo encontrar por aí, mas não se temia qualquer coisa. Eu, por exemplo, morria de medo de assombração, do escuro, das minhas unhas ficarem roxas, de passar por baixo do arco-íris e principalmente do Dico - a versão do implacável homem-do-saco da minha infância. O pobre coitado não era nada mais do que um bêbado, um alcoólatra que, segundo os comentários, desde manhã quando chegava à roça já estava caindo embriagado. Era inofensivo, mas meu pavor vinha da famosa sensibilidade pedagógica das mães, as quais criam mecanismos de coerção que garantam a obediência dos filhos de forma eficaz, limpa e seca. Lembro-me que temíamos muitas coisas, os bandidos também, mas não a polícia. Quando vi um policial, sobrinho de um vizinho, sentado à mesa, fardado, tomando café com o meu pai, tive a certeza de uma revelação encantadora: “Eles existem mesmo”. Nas brincadeiras de “Polícia X Ladrão” que nos roubavam extensas horas pelas árvores, quintais e grotas de Piedade do Paraopeba, era sempre a mesma briga para ver quem era policial, só não insistiam aqueles que já tinham desenvolvido técnicas superiores de invisibilidade e se tornavam quase impossíveis de serem encontrados. Mas as coisas mudam, de repente, alguém nos dá as rédeas e as escolhas se tornam sérias. O lado para qual se quer jogar já está muito distante de uma rodada ou uma partida, faz muita diferença, ou, pelo menos, fazia.
Atualmente, que diferença faz? Não há mais sexo ou idade que possa isentar alguém, nem mesmo o lado que ela escolheu. Se você, mesmo que seja um cidadão honesto (ou que pensa que é), estiver no local errado apenas reze. Não há mais distinção entre os bons ou maus para a lei. Em questão de segundos, ela detém, julga e executa. Depois diz: Desculpe-nos, Nós nos enganamos. Como se isso fosse reparar uma morte, ou fazer com que um pai se revolte menos com o fuzilamento frio de uma criança de três anos, sem tempo suficiente para escolher se queria ser mocinho ou bandido, pois a antiga brincadeira já não deve ser mais praticada hoje.
Não há mais distinção de sexo, mulher também comete crime, então todas podem ser vistas como bandidas, aliás, não precisam nem serem enxergadas. A polícia atira antes mesmo.
No ônibus, a mãe assustada e apressada para explicar alguma coisa ao filho, pois ninguém gostaria que um menininho como aquele crescesse não gostando de policiais, disse: “aquilo foi na televisão, meu filho. Só existe na televisão”. Até eu gostaria de acreditar nisso, gostaria muito, mas como o garotinho, eu também tenho medo.
Trilha vídeo-sonora

Olá meu caro Riverson. Eu também tenho medo, principalmente de pessoas com poder demais nas mãos. A invulnerabilidade perante meros civis, como nós, os encoraja a desrespeitar tudo o que esperamos que eles – as autoridades, militares ou não – representam. Só nos restaria reclamar, mas não conseguimos, pois, como indivíduo somos fracos e como população, somos incapazes de ir além de pequenos grupos isolados em suas próprias ideologias preconceituosas. Como ainda não há hipnose socialmente saudável via televisão ou outra mídia, acredito que nada vai mudar (para melhor) em pouco tempo… Grande abraço.
Ricardo (Bonner) disse isso em Julho 22, 2008 às 10:55 pm |
Olá, Ricardo. Fico feliz em ver que você encontrou meu humilde blog. Seu comentário me fez pensar nessas pessoas “com poder demais” e o que mais me amedrontou foi a constatação que não as escolhemos. De repente, quando saímos às ruas nos deparamos com esse tipo de autoridade imposta por uma farda, uma arma e o direito de agir violentamente fundamentados em um ponto de vista< muitas vezes, perverso. Infelizmente, concordo com você, as coisas não mudarão tão cedo, ou tão fácil e se me permite colocar em prática meu péssimismo, a situação tende a piorar.
Cara, aproveite suas férias.
Grande abraço.
Riverson
Riverson Silva disse isso em Julho 23, 2008 às 8:46 pm |