Não me sinto culpado
(quando me isento dos problemas ecológicos que insistem em compartilhar a culpa comigo)
Tenho observado que nos últimos tempos têm sido veiculadas na mídia
chamadas que tentam conscientizar a população sobre alguns problemas gerais e de como eles atingem a todos nós. Isso seria muito bom, entretanto, essa tentativa de tornar cada cidadão comum consciente parte do princípio de que todos nós somos culpados. Ou seja, se há algum mal atormentando o planeta não me basta ajudar, segundo os conscientizadores, pois, de alguma forma cooperei para que a situação chegasse onde está. Sou forçado a concordar que a omissão, a famosa vista grossa, atrapalha mais do que ajuda. Mas em alguns casos, nós, pobres mortais, somos impotentes e inaudíveis frente aos problemas criados pelos grandes. Isso se aplica muito bem quando o assunto é a degradação ambiental.
Na semana que passou, vi um anúncio do Partido Verde em que uma mulher falava sobre problemas ecológicos de níveis locais e globais, dizendo se considerar culpada e que o problema era dela. Ora, é obvio que o problema é dela se o
planeta está superaquecendo, se o buraco da camada de ozônio é irreversível e cada vez mais aumenta, se a Floresta Amazônica diminui em proporções enormes todos os dias, mas daí querer me imputar culpa disso. Não, não me sinto culpado.
Quando a Cataguazes, indústria de celulose, foi a causadora do maior incidente fluvial relacionado à poluição, no dia 29 de março de 2003, gostaria de saber se eu poderia ter evitado, ou se tive alguma culpa nos 1,2 bilhões de litros de dejetos que foram lançados no Rio Pomba. Da mesma forma, não consigo ver a minha participação na destruição da Serra do Curral, mesmo porque não recebo nem um centavo do que a mineradora responsável arrecada, nem a ajudo a ampliar o buraco que esta sendo feito atrás da serra. Na emissão dos gases, procurem o Mr. Bush, ou qualquer estadunidense que encontrarem por aí, mas não me façam pagar por algo que todos sabem que é o responsável. Além disso, os gases que produzo com meus vinte cigarros diários são muito menos prejudiciais do que as grandes indústrias dos países desenvolvidos.
O que mais me admira é que a culpa sempre recai sobre a população, sobre o pobre, sobre quem não tem como modificar a situação e os responsáveis, geralmente ricos e poderosos, local ou globalmente falando, não são citados. Por quê o PV, tão preocupado com o meio ambiente, não faz sua campanha citando nomes?
Por pura curiosidade, acessei os sítios de duas grandes organizações que lutam pela preservação do planeta. Na página da WWF, encontrei além de anúncios de campanhas, notícias e link para novos afiliados, uma página que traz dicas de como ajudar o meio ambiente. No caso do Green Peace, a página é visualmente mais atrativa e possui um conteúdo bem análogo ao da organização anterior. Também tem uma parte destinada a conselhos ambientais que podem ser praticados por qualquer um sem treinamento prévio. São as dicas para mudar o clima em casa, na escola ou no trabalho. Não vi nehuma lista negra dos grandes poluidores, talvez por descuido – não descarto a possibilidade -, mas penso ser bem mais coerente a forma com é tratada a responsabilidade de cada um, bem diferente da forma feita pelo partido do Gabeira.
Sobre a minha responsabilidade em preservar o mundo, dessa eu não me isento, mas é muito diferente escovar os dentes com a torneira aberta e deixar vazar óleo nos oceanos. Se ainda não plantei uma árvore, por outro lado não cortei nenhuma sequer, muito menos uma floresta inteira e se ando de carro ou ônibus, não chega à proporção da emissão de gases do hemisfério norte que sempre jogam o peso ambiental nas doloridas e surradas costas subdesenvolvidas.
Por favor, não pensem que não me importo com o futuro do planeta. Importo-me sim, só que nesse jogo o correto é cada um fazer a sua parte, pagar a
conta de acordo com o que gasta
e não obrigando a todos que estão sentados à mesa dividirem a quantia em partes iguais.

não censuro a tua opinião nem discordo completamente, mas gostava de te lembrar de certos pontos: se eu também andar de carro e não fechar a torneira quando lavar os dentes, já seremos dois a fazê-lo. contando com o grande número de pessoas que anda de carro e que possívelmente gasta bastante àgua em vão para além da altura em que escovam os dentes, essa pequeníssima e indivídual agravação da crise ambiental, tornarse-á num gesto bastante significativo para o estado do meio ambiente. Não nos podemos esquecer que todos carregamos essa responsabilidade ecológica, e quando se diz que todos somos culpados é porque, de facto, somos. Não enquanto indivíduos singulares, mas sim enquanto humanos. Para além disso, esses grandes poluidores e consumistas dos recursos naturais de que falas e comparas contigo, de certo modo, agem em relação aos interesses da população, pois esses consumismos são o que te dão conforto no dia-a-dia. É de onde vem o combustível para o carro, o insecticida para matar aquela mosca horrivel, a energia para a luz que precisas quando a noite chega, a televisão que ligas para ver a tua serie preferida, entre milhares e milhares de coisas, incluíndo a energia que usaste para ligar o computador e escrever esse texto. A verdade é que nenhum de nós sabe viver sem esse tipo de coisas e o Planeta está a chegar a um ponto sem retorno. Por outro lado ainda bem que não te sentes culpado, pois é sinal que tens feito o mínimo a favor da Natureza, porque é pelo menos isso que se pede agora, que as pessoas um mínimo dos 3r’s (reduzir, reutilizar e reciclar).
luz disse isso em Março 31, 2008 às 11:29 am |
*que as pessoas se esforcem para fazer um mínimo dos 3r’s… enganeime no final!
luz disse isso em Março 31, 2008 às 11:31 am |
Fiat Lux! Prezada Luz, vou tratar você como sujeito feminino, já que o substantivo escolhido como alcunha é feminino, mas com a incerteza e a insegurança de me referir, possivelmente, a um homem.
Bem, já de início, gostaria de agradecê-la pela visita e pelo comentário. Meu humilde blog não recebe muitas visitas e quase a totalidade das pessoas que acessam a página não se prestam a comentar o que escrevo. Gostei muito da forma com adotada por você na defesa do seu ponto de vista, confesso que fiquei incomodado com o que escreveu. Por alguns minutos cheguei a me considerar um monstro devorador de árvores, mas logo passou.
Não sei se devo ressaltar que não sou contra os esforços e movimentos pela preservação, acho que isso ficou claro no que escrevi. Minha única crítica é com a forma de disseminar a culpa. Ora, isso é uma questão de senso crítico, única e exclusiva. A minha recusa é de aceitar essa imposição, que está bem representada em seu comentário quando escreve que a minha condição de ser humano me torna culpado. Isso me fez lembrar de quando eu era um bom cristão católico. Toda aquela história de que eu carregava a culpa do erro de Adão, pecado original que herdei de meus pais. Se não percebe, idéias como essa servem para condicionar as massas, o que facilita a manipulação, e quem realmente deveria ser crucificado sequer é chamuscado pelas chamas da exposição. Pois, se acredito que a culpa também é minha, isso faz com que eu não me sinta no direito de julgar os outros, a ponto de me considerar tão mal e merecedor do mesmo inferno para onde vai a Companhia Rio Verde (citada no texto publicado no blog).
Outro ponto que me deixou intrigado, e espero não tê-lo entendido bem, é quando afirma que os grandes poluidores agem em relação aos interesses da população. Pois bem, por você conjugar os versos na segunda pessoa e pela grafia de algumas palavras, acredito que não seja brasileira. Aqui no Brasil, a dinâmica exposta em seu texto é completa e extremamente oposta. O consumo é plantado e regado pelas grandes empresas, não pela população. É delas o grande interesse de lucro. A fome de comprar vem de estratégias de mercado que fazem com que nós queiramos adquirir qualquer coisa que aparece nos comerciais. É por isso que uma boa empresa mantém um departamento de marketing e propagando bem competente.
Quanto à energia e o combustível, é importante que saibamos que há interesses maiores por trás disso, como no caso do Petróleo. Ou você acha que a gasolina pode ser substituída por outro combustível sem mais, nem menos? No Brasil, já existe o álcool combustível há pelo menos três décadas, já tivemos o famoso programa Pro-Álcoll, nos anos 70’s durante a crise do petróleo. Mas, sabe-se lá o porquê, a coisa desandou e o que poderia ser a autonomia para o país em relação a combustível, virou opcional de fábrica. Ah! Esqueci de mencionar que, além disso, o álcool é mais barato. Ou seja, opções menos degradantes ao meio ambiente existem, mas não são utilizadas para não tirarem o lucro dos poderosos.
É por essa e outras, querida Luz, que continuo não me sentindo culpado se a Amazônia está sumindo, ou se já nos resta muito pouco da Mata Atlântica, já que ao invés de procurarem os verdadeiros culpados, insistem em esconder a responsabilidade, a grande responsabilidade, colocando-a nos bolsos de cada um de nós.
Abraço
Riverson Silva disse isso em Abril 7, 2008 às 4:07 pm |
Riverson, eu concordo com o que vc diz. Realmente é claro que a percentagem “culpa” pela condição ambiental é de algumas poucas empresas em certos segmentos que jamais abrirão mão de seus lucros para aliviar a barra pra Terra. Somos todos culpados, quem sabe, da mesma maneira como somos todos culpados em Adão: quer dizer, por sermos ocidentais. Isso não é exatamente culpa, é herança de uma condição. E da mesma forma como não podemos trocar a condição adâmica (segundo a teologia) não dá pra trocar de uma hora para outra a condição de participantes nisso aqui. Verdade que, se continuar assim, temos pouco tempo. Contudo é preciso mudar todo um esquema de civilização que levou dois milênios pra ser construída, e mesmo assim, pelo colapso de outras opções. O buraco é mais embaixo e difícil de alcançar.
André Tavares disse isso em Abril 7, 2008 às 5:44 pm |
Nada do que eu escrevi no meu comentário foi em forma de crítica ao que escreveste, a minha intenção era acrescentar aspectos que, na minha opinião eram importantes. Tens razão não sou brasileira, e por essa mesma razão não falei em “grandes poluidoures e consumistas” a pensar na grande desflorestação da Amazónia ou outros males que conheces e vives mais que eu. O que eu quiz dizer quando puxei esse assunto, é que, de facto, a maior parte desses grandes consumismos, etc. têm como objectivo último, agradar a população, independentemente de tudo o que possa haver por trás.
Não podemos falar como se fossemos obrigados a ter tudo o que a publicidade nos mostra, pois assim estariamos a esquecernos do que nos distingue dos outros seres-vivos, a capacidade de raciocínio e, consequentemente, a de escolher. Não pretendo com isto dizer que não somos nada afectados pelos media, ou que estes mesmos não têm estratégias manipuladoras, porque têm, mas no fundo a decisão final é nossa.
Também não foi intenção minha mencionar que a condição de seres humanos nos tornava culpados, não é nada disso que eu quero transmitir. O que eu quiz dizer com ” és culpado, não enquanto pessoa indivudual, mas sim enquanto Homem”, foi que, mesmo que os teus actos te pareçam extremamente pequenos enquanto pessoa individual, não te podes esquecer que há milhões de outras pessoas a cometerem os mesmos actos. Tudo o que eu escrevi foi apenas uma tentativa de explicar o facto dos media transmitirem que, todos somos culpados.
Sei que há coisas que estão a ser feitas para remediar o assunto, e quando disse que o facto de não te sentires culpado era bom, pois significava que estavas a fazer algo para tal, não o quiz dizer de forma sarcástica, peço desculpa se foi essa a mensagem que passei. Volto a lembrar que nada do que escrevi foi em forma de crítica, e que a minha intenção era apenas de acrescentar algo, não discordando do que disseste.
Agradeço a tua resposta ao meu comentário e espero que esse mesmo tenha ficado esclarecido agora.
P.S.: Sou portuguesa, e sim, acertaste quando te dirigiste ao feminino.
Luz disse isso em Abril 7, 2008 às 5:56 pm |
Simplesmente adorei seus textos. É exatamente assim que me sinto quanto á questão ambiental. Só que eu me sentia culpada.Vc me aliviou de certa forma, pois já mudei todos meus hábitos e ainda vejo a destruição do planeta. Inclusive, caso me permita, gostaria de utilizar esse texto em uma aula minha, no subtema “responsabilidade social e consciência ambiental…”. citando a fonte. Mas qual a fonte mesmo?
Prfª Rosana disse isso em Julho 27, 2008 às 7:14 pm |
Prezada Rosana, fico satisfeito em saber que comungamos em opinião. De fato, é imprescindível que estejamos sempre atentos quando o assunto é divisão da responsabilidade. Quanto ao uso do texto, fique à vontade, use e abuse deles. Fico lisongeado com essa possibilidade, já que tenho consciência de que preciso muito melhorar a forma com que escrevo, apenas peço que revise o texto antes, pois escrevo de forma muito livre e nem sempre faço a revisão deles. Quanto a referência, pode usar o endereço do texto (http://riversssss.wordpress.com/2007/09/25/nao-me-sinto-culpado), junto com o horário e o dia de acesso.
Agradeço-lhe de coração.
Riverson Silva disse isso em Julho 28, 2008 às 7:32 pm |
Riverson,
Meus meninos do Curso de Liderança addoraram sua opinião acharam corajosa. Um deles disse que nunca havia parado para pensar por esse outro lado.
Obrigada.
Rosana disse isso em Agosto 8, 2008 às 8:13 pm |