13
Mai

O show(nalismo) de continuar

Na última semana, vi na tv que o casal Nardoni havia sido preso. Confesso um certo alívio por ver que a novela Isabela pode se findar (se Deus quiser), mas imagino como as redações dos jornais se agitaram em busca de um novo combustível para acelerar os motores da audiência, que chegou a sofrer um acréscimo de 46%. Se bem que o que não falta é notícia secundária, sem importância nenhuma, para transformá-la no motivo principal para todo o alvoroço planejado da mídia.

O que mais me causou revolta não foi o fato de apontarem o pai como responsável, juntamente com a madrasta, mas a comoção desmedida emitida por populares que sequer conheciam vítima ou réus. Só para esclarecer, é óbvio que uma morte como essa choca, mas pai matar filho isso acontece desde que o mundo recebeu o santo sacramento de batismo. Coisa assim afeta quem acredita em mitos como amor materno/paterno, laços de sangue e afeto automático apenas por ter algum tipo de parentesco.

Pode até parecer ingenuidade, mas me assombro com o poder que a imprensa tem sobre a população. Todos continuam lendo ou assistindo aquilo que é eleito como o fato mais importante do momento, mas ninguém para cometer o exercício herético de pensar sobre qual seria a real motivação disso tudo. Também não posso afirmar qual será, mas se algum canal de televisão, jornal, ou desocupado que faz plantão na porta do prédio e de delegacia tivesse realmente preocupação com as crueldades praticadas contra as pobres crianças do Brasil, estariam noticiando sobres as muitas Isabelas que são arremessadas para a prostituição infantil, as Isabelas que são atiradas nas ruas, as Isabelas que são jogadas para a morte pela fome, as também Isabelas que perdem seus futuros miseráveis e analfabetos em algum lugar dessa nossa, atual e assustadoramente, nação tão sedenta de justiça como demonstrou ser em poucos momentos.

Em meio a tanto shownalismo adotado pela mídia, não sei como nenhum canal convocou os irmãos Winchester, a Turma do Scooby-Doo, ou o Goober e Os Caçadores de Fantasmas (alternativa possivelmente mais barata) para solucionarem o problema. Ora, só faltaram atribuir fenômenos sobrenatural ao assassinato, já que o povo gosta tanto disso também. Mas ainda está em tempo de chamarem o pessoal de Law and Order, ou CSI, para o caso do Ronaldo e os Três Mosqueteiros Bonecas (apelidados, segundo a Veja, de Raça, Amor e Paixão), uma vez que parece que os tablóides de direita elegeram esse como o novo feixe de lenha para manter acessa a devoradora fornalha da suposta liberdade de expressão. De qualquer forma, qualquer mesmo, o shownalismo deve continuar.

11
Dez

Vai bala?

Eu poderia iniciar este texto fazendo uma comparação entre as balas perdidas do Rio de Janeiro e as balas vendidas nos ônibus em Belo Horizonte, mas meu senso de humor não consegue ser tão ridículo e inapropriado, já que além da piada ser fraquíssima, a situação da capital nacional do Capitão Nascimento não tem graça. Contudo, é apenas o segundo assunto que me interessa agora. Ultimamente, na cidade do pão-de-queijo e do pirulito (da Praça Sete), tem sido comum à presença de jovens, desde adolescentes até adultos, vendendo balas, doces, chicletes e outros dentro dos coletivos, nos mais variados horários. Aquela história do “eu podia estar roubando”, embora não seja mais cantarolada em entonação de texto duramente decorado, essa situação é perceptível.De maioria negra, tipicamente trajados como moradores de periferia e expressão quase sempre simpática, os vendedores se configuram em uma das partes do binômio fome/vontade de comer (foi mal, mas hoje eu estou um clichê só). Pois, agüentar o trânsito de Belo Horizonte não é tarefa que exige apenas paciência, e desprendimento material, já que pode lhe custar o emprego por tanto atraso e sempre a mesma desculpa que chefe nenhum acredita mais, mas às vezes as horas de lentidão na “fila do inferno” podem lhe causar fome, sede, vontade de se distrair fazendo bola enormes de goma de mascar, que podem funcionar também na aquisição de mais espaço, uma vez que ninguém é muito apreciador de chicletes no cabelo.O que resulta com essa iniciativa dos ambulantes dos ônibus é que o passageiro tem um pouco mais de comodidade, não aquela que se tem em um Ford Fusion, nada disso, mas podem comer, ou chapar alguma coisa (não ouse pensar besteira, estou me referindo a um local público) sem ter que esperar até o fim da travessia no Flegetonte.

01
Dez

Não, eu não morri… ainda!!!

Mas bem que esse fim de semestre está se esforçando ao máximo para me matar.

24
Out

Boletim da boa música - O Teatro Mágico

Não sei quantos conhecem “O teatro mágico”, por isso, vai aí uma dica musical para todos.  Esse projeto mistura boa música, elementos cênicos e circenses com poesia, literatura e cancioneiro popular. Ainda não descobri de onde os caras são, embora os telefones de contato sejam de São Paulo, a banda não se parece muito que o que tem por lá.

No sítio da banda é possível encontrar fotos, agenda, camisetas, cd’s e mp3 de graça, o melhor da festa.

 O vídeo abaixo é da música O anjo mais velho, primeira música que ouvi deles e, acreditem, não é a melhor.

Só mais uma coisa, o clip não é oficial, foi alguém que juntou a música com as cenas do filme Amélie.

23
Out

Números, inexatos, mas números.

 Ataque com helicópteros dos EUA mata 16 pessoas no Iraque

http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u338939.shtml

 

 

 Pois é, disseram que a guerra tinha acabado em 20 de março de 2003, mas o engraçado é que todos os dias as agências de notícias dão números novos de baixas, quase sempre do lado civil da coisa. O que me assusta mais é ver pessoas se alistando para um inferno desses.

Há pouco tempo, encontrei um amigo, filho de pai brasileiro e mãe americana, que me contou o esforço que fez ao tentar entrar para as Forças Armadas do Brasil. Para felicidade dele, fora recusado e agora está no final do curso de administração e já tem um bom emprego. Contudo, se ele não teve muita sorte em se alistar no exercito daqui, seu amigo, filho de pai estadunidense e mãe brasileira, não pensou duas vezes. Foi para os Estados Unidos e integrou às tropas que estão no Iraque. Por e-mails já contou ao amigo sobre uma bala perdida que ganhou de brinde no braço e das “aventuras” com direito ao tanque que estava ao lado do seu ser atingido por um míssil.

Para uns e outros que ainda pensam que a guerra é apenas uma projeção dos filmes ou desenhos dos G.I. Joes, ou um tabuleiro de War e que os mocinhos sempre ganham, coroados pela justiça que sempre chega, por mais que tardia, deve ser frustrante perceber o quanto a realidade é diferente das notícias. Certo dia, nem me lembro quando, estava à deriva na Internet, quando resolvi procurar alguma coisa realmente útil: fotos de fantasmas (tudo bem, é a maior picaretagem, mas é divertidíssimo). No site, não havia apenas fotos de orbs, ou ectoplasma. Numa das seções, intitulada tortura que me chamou atenção. Antes que alguém pense que foi por sadismo, já explico que foi por curiosidade pelas máquinas utilizadas na Idade Média. Contudo, para o meu espanto, não havia aparelhos antigos, ou padres sanguinários, mas cenas de mulheres afegãs e iraquianas sendo humilhadas e estupradas pelos soldados estadunidenses. Coisa que as agências de notícias nem sonham em dizer, quando mencionam, são sempre os bárbaros que lutam contra as forçar da liberdade que comentem uma atrocidade dessas.

Enquanto a Reuters dá números pingados de civis mortos, acidentalmente confundidos com terroristas armados até os dentes que ocultaram o armamento nos bolsos vazios, a coisa é bem pior do que se imagina. A prepotência e arrogância estadunidense não encontram oponente a altura no planeta e continuam a matar e encobrir os números, como se fosse possível melhorar a imagem sanguinária que eles mesmos vêem construindo há séculos.

22
Out

Dia de São Vinicius Moraes – 19 de outubro

 

Na última sexta-feira, a Igreja Intergaláctica Riveriana comemorou o dia de São Vinicius de Moraes. Nascido nessa mesma data no ano de 1913, na cidade do Rio de Janeiro, o santo dedicou a sua vida à diplomacia, ao jornalismo, à poesia e à música.

São Vinicius é o santo casamenteiro da nossa congregação. Onde já se viu um santo que nunca se casou ser responsável pelo matrimônio? Como um tal de Santo Antônio poderia conseguir desencalhar alguém sendo que nunca se casou?

Por isso, nós da Igreja Riveriana instituímos São Vinicius como santo patrono do casamento e enlaces amorosos informais. Quando estávamos entre nós, casou-se nove vezes. Ora, isso me força a perguntar: quem entende mais sobre o assunto? Quem tem mais experiência? Quem pode aconselhar ou rogar com mais autoridade? Uma pessoa que nunca contraiu matrimonio, ou uma que passou pelo Calvário nove vezes?

Por essas e outras que dizemos:

 São Vinicius de Moraes, rogai por nós pecadores!

Bem-aventurados os nacidos no dia do Santo do whisky, da poesia e das mulheres.

Sarava, ops, amém.

P.S.: Em caso de desespero não coloquem foto ou miniaturas de São Vinicius de cabeça para baixo em um copo com água, isso pode reverter o processoo. O correto é colocá-lo num copo com bastante whisky, dos bons, nada de paraguaio.

05
Out

Sabbath Bloddy Sabbath por The Cardigans?

O que seria de nossas enfadonhas e previsíveis vidas se não fossem as coisas inusitadas? Nada melhor para quebrar a monotonia de um fim de tarde do que algo totalmente inesperado, surgindo diante de nossas cansadas caras.

Pois é, foi dessa forma que levei o melhor susto da semana passada. Estava esperando o dia morrer lenta e agonizantemente, quando começou a tocar no computador, conectado à Last fm, uma música que não me era estranha, dessas que você já ouvi várias vezes em algum lugar, mas não consegue se recordar de imediato. Foi quando me abismei. A música era Sabbath Bloody Sabbath, aquela do Black Sabbath que certamente todo mundo que já teve sua fase headbanger já ouviu, contudo, não era tocada por nenhuma banda de heavy metal. Era The Cardigans, isso mesmo, a bandinha sueca de indie pop, aquelLifea mesma do hit Lovefool, trilha sonora do filme Romeu “di Caprio” e Julieta.

A versão da música da banda de Ozzy, foi gravada em 1995 no álbum Life.

Vale mais a pena ouvir por ser quase absurdo uma banda one hit wonder, fábrica de babinhas, tentar recriar a música, despindo-a do clima macabro e peso dos instrumentos. Entretanto, ficou bem legal, ou melhor legalzinha (pra combinar com a bandinha)

Confira as duas versõe e deixe um comentário.  

Clique e ouça:The CardigansSabbath Bloody Sabbath

Ouça a versão original:Black Sabbath - Sabbath Bloody Sabbath 

 

25
Set

Saudade dos 90’s - Faith no More

Pra quem não teve o privilégio de ter mais de 10 anos durante a década passada, provavelmente não se lembra de muita coisa boa. Tratando-se de música já postei Blind Melon e Helmet, mas falar dos 90’s sem citar o Faith no More é verdadeiramente um sacrilégio. A banda foi formada ainda nos anos 80, na cidade de San Francisco, Califórnia. A vida dos caras mudou, quando trocaram o vocalista Chuck Mosley por Mike Patton.

O vídeo que segue abaixo é da música A Small Victory, quinta música do álbum Angel Dust (1992) encarregado da duríssima tarefa de substituir os lendários The Real Thing (1989) e Live at the Brixton Academy (1990).  

Particularmente, A small victory não é a minha música preferida da banda, mas não há como negar que o clipe é fantástico, verdadeira superprodução. Arrisco a dizer que em aspectos técnicos ele se posiciona entre os cinco melhores da década. 

Faith No More - A Small Victory

Vai a letra de brinde:

A Small Victory

 (Faith No More)

A Hierarchy
Spread Out On The Nightstand
The Spirit Of Team
Salvation Is Another Chance
A Sore Loser
Yelling With My Mouth Shut
A Cracking Portrait
The Fondling Of Trophies
The Null Of Losing
Can You Afford That Luxury?
A Sore Winner
But I’ll Just Keep My Mouth Shut
It Shouldn’t Bother Me, No, It Shouldn’t, No, No
It Shouldn’t Bother Me, No, 
It Shouldn’t,
But It Does
The Small Victories
The Cankers And Medallions
They Keep Me Thinking That Someday 
I Might Beat You
But I’ll Just Keep My Mouth Shut
It Shouldn’t Bother Me, No, It Shouldn’t, No, No
It Shouldn’t Bother Me, No, It Shouldn’t,
But It Does
If I Speak At One Constant Volume
At One Constant Pitch
At One Consonant Rhythm
Right Into Your Ear,
You Still Won’t Hear
You Still Won’t Hear
You Still Won’t Hear
You Still Won’t Hear
You Still Won’t Hear
You Still Won’t Hear
You Still Won’t Hear
25
Set

Não me sinto culpado

(quando me isento  dos problemas ecológicos que insistem em compartilhar a culpa comigo) 

  

Tenho observado que nos últimos tempos têm sido veiculadas na mídia chamadas que tentam conscientizar a população sobre alguns problemas gerais e de como eles atingem a todos nós. Isso seria muito bom, entretanto, essa tentativa de tornar cada cidadão comum consciente parte do princípio de que todos nós somos culpados. Ou seja, se há algum mal atormentando o planeta não me basta ajudar, segundo os conscientizadores, pois, de alguma forma cooperei para que a situação chegasse onde está. Sou forçado a concordar que a omissão, a famosa vista grossa, atrapalha mais do que ajuda. Mas em alguns casos, nós, pobres mortais, somos impotentes e inaudíveis frente aos problemas criados pelos grandes. Isso se aplica muito bem quando o assunto é a degradação ambiental.  

Na semana que passou, vi um anúncio do Partido Verde em que uma mulher falava sobre problemas ecológicos de níveis locais e globais, dizendo se considerar culpada e que o problema era dela. Ora, é obvio que o problema é dela se o planeta está superaquecendo, se o buraco da camada de ozônio é irreversível e cada vez mais aumenta, se a Floresta Amazônica diminui em proporções enormes todos os dias, mas daí querer me imputar culpa disso. Não, não me sinto culpado. 

Quando a Cataguazes, indústria de celulose, foi a causadora do maior incidente fluvial relacionado à poluição, no dia 29 de março de 2003, gostaria de saber se eu poderia ter evitado, ou se tive alguma culpa nos 1,2 bilhões de litros de dejetos que foram lançados no Rio Pomba. Da mesma forma, não consigo ver a minha participação na destruição da Serra do Curral, mesmo porque não recebo nem um centavo do que a mineradora responsável arrecada, nem a ajudo a ampliar o buraco que esta sendo feito atrás da serra. Na emissão dos gases, procurem o Mr. Bush, ou qualquer estadunidense que encontrarem por aí, mas não me façam pagar por algo que todos sabem que é o responsável. Além disso, os gases que produzo com meus vinte cigarros diários são muito menos prejudiciais do que as grandes indústrias dos países desenvolvidos.

O que mais me admira é que a culpa sempre recai sobre a população, sobre o pobre, sobre quem não tem como modificar a situação e os responsáveis, geralmente ricos e poderosos, local ou globalmente falando, não são citados. Por quê o PV, tão preocupado com o meio ambiente, não faz sua campanha citando nomes?

Por pura curiosidade, acessei os sítios de duas grandes organizações que lutam pela preservação do planeta. Na página da WWF, encontrei além de anúncios de campanhas, notícias e link para novos afiliados, uma página que traz dicas de como ajudar o meio ambiente. No caso do Green Peace, a página é visualmente mais atrativa e possui um conteúdo bem análogo ao da organização anterior. Também tem uma parte destinada a conselhos ambientais que podem ser praticados por qualquer um sem treinamento prévio. São as dicas para mudar o clima em casa, na escola ou no trabalho. Não vi nehuma lista negra dos grandes poluidores, talvez por descuido - não descarto a possibilidade -, mas penso ser bem mais coerente a forma com é tratada a responsabilidade de cada um, bem diferente da forma feita pelo partido do Gabeira.

Sobre a minha responsabilidade em preservar o mundo, dessa eu não me isento, mas é muito diferente escovar os dentes com a torneira aberta e deixar vazar óleo nos oceanos. Se ainda não plantei uma árvore, por outro lado não cortei nenhuma sequer, muito menos uma floresta inteira e se ando de carro ou ônibus, não chega à proporção da emissão de gases do hemisfério norte que sempre jogam o peso ambiental nas doloridas e surradas costas subdesenvolvidas. 

Por favor, não pensem que não me importo com o futuro do planeta. Importo-me sim, só que nesse jogo o correto é cada um fazer a sua parte, pagar a conta de acordo com o que gasta e não obrigando a todos que estão sentados à mesa dividirem a quantia em partes iguais.

 

     

  

20
Set

Resposta a André Tavares

 

Tudo bem, eu sei que isso é comportamento de um preguiçoso, mas como essa semana não tenho muito tempo para nada, muito menos para escrever, resolvi postar a resposta que de às perguntas do André Tavares (contrasenso), uma vez que ele fez perguntas interessantíssimas, no comentário sobre o texto Felicidade foi embora? Ou nunca veio? 
Felicidade não é fantasia - ainda que a maior parte das pessoas assim imagine. Fantasia gera fantasmas, descolamentos da realidade…mas será possível experimentar alegria, beleza, verdade e amizade - de maneira plenamente humana? (André Tavares)

Caro André, penso que o grande problema da alegria e da beleza se assemelha ao da felicidade, ou seja, a forma como conceituamos, ou encaramos, já que principalmente a beleza é uma condição relativa e depende do que cada um considera belo. Obviamente, não desconheço a forte influência do discurso estético hegemônico, mas ser humano também é ser diverso, é ser muitos. Contudo, a alegria já é algo que não se apresenta com o compromisso de ser constante. Da maneira mais simples que se possa imaginar, alguém, ou alguma coisa ou situação, pode lhe deixar alegre, assim como pode lhe deixar triste. É muito fácil imaginar a alegria dando lugar à tristeza e tomando de volta. Isso sim é humano. Inconstante, passível de oscilações.

Da mesma forma, a amizade também não pode ser encarada como um laço irrompível, já que amigos são humanos, gente, com todas as características peculiares a esse tipo de ser, ou seja, as louváveis qualidades e os famigerados defeitos. Esperar perfeição de um(a) amigo(a) é criar uma expectativa que o(a) mesmo(a) deixe de apresentar traços de humanidade. Isso também implica na visão egoísta do amigo sempre fiel, disponível, prestativo, quase um servo. Atrevo-me a incluir todos os tipos de relacionamentos, principalmente os amorosos, em que a idealização do(a) companheiro(a) perfeito(a) pode acabar criando transtornos e decepções irreparáveis.

Quanto à verdade, vinda do que é humano, certamente é algo tão falho e questionável quanto o próprio emissor. Seja por conveniência, por desconhecimento, por manutenção do poder, vinda de uma pessoa é sempre portadora de deficiências morais. Contudo, - não sei se fujo do assunto - mas essa mania irritante de considerar a verdade, previamente, como sendo sempre relativa, não passa, em muitos casos, de um sintoma de covardia ou desprezo em se conhecer a “verdade” do outro. É uma questão de discurso hegemônico em que a verdade do outro - um caso de alteridade - é sempre posta do lado de fora do que é relevante concordando e ter o braço torcido.

 De forma geral, se a maneira plenamente humana não levar em conta toda “tranqueira” que, automaticamente, vem junto com uma simples classificação que descarta qualquer incidência de perfeição, na verdade o que se espera é mais ilusão, idealização, sonho, ou a cura das próprias frustrações em ações externas, bálsamos trazidos por outras pessoas o que é sempre mais cômodo do que produzir seu próprio remédio (pelo amor de Deus, não estou falando em auto-ajuda). Vejo que o problema não é a forma com que a experiência acontece, mas o conceito e, inevitavelmente, a expectativa que imputamos nas coisas. É como aquela namorada bonitinha que de tão apaixonados não acreditamos que ela vá ao banheiro, ou sequer, tenha crises de flatulência que no primeiro arroto perde todo o encanto.  




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